Violência urbana: os ricos e famosos também choram

21out08

E esta é uma constatação que os extratos inferiores da pirâmide social vivenciam a muito tempo, mas duas notícias em um intervalo de tempo curto chamou a atenção.

Na semana passada, na manhã do dia 13 de outubro, um edifício residencial na Alameda Campinas, nos Jardins em São Paulo sofreu um arrastão. Foi o primeiro? Não. Será o último? Com certeza não.

E no dia 20 de outubro, uma segunda-feira, ontem para ser mais exato, o empresário Arthur Sendas de 73 anos foi assassinado com um tiro. O assassino confesso é um dos motoristas da família e trabalhava a 10 anos para os Sendas. Fez o que fez pelo medo de perder o emprego…

Arthur Sendas comandou uma das maiores redes de supermercados do País. Além disso, presidiu a Associação Comercial do Rio de Janeiro e a Associação Brasileira de Supermercados (Abras).

Com um histórico desses e morto sem razão, uma vida que se perde na banalização da morte. Morre-se por pouco e isto assusta.

Mais algumas histórias, para não ficar em apenas duas:

Em junho deste ano o Rei Pelé sofreu em Santos, a sua cidade, um assalto.

Segundo a revista Veja, a abordagem aconteceu quando o motorista do ex-jogador diminuiu a velocidade. Cerca de dez adolescentes armados com facas e revólveres cercaram o carro, que não tem blindagem. Pelé chegou a abrir a janela e a mostrar o rosto para os assaltantes.

“É o Pelé, é o Pelé”, teria dito o ex-jogador.

Em vão. A tentativa não adiantou: um ladrão arrancou um cordão de ouro de Pelé. E pensar que no milésimo gol ele pediu ajuda para as crianças deste Brasil.

E no dia 24 de junho de 2005, o jogador Roberto Carlos foi assaltado durante entrevista ao vivo. O jogador ia conceder entrevista a rádio Jovem Pan, mas foi interrompido por uma dupla de assaltantes

Leia como foi através do Lacepress:

O lateral esquerdo da Seleção Brasileira e do Real Madrid (ESP), Roberto Carlos foi assaltado, a mão armada, em semáforo de Belo Horizonte, quando ia entrar ao vivo para conceder uma entrevista à Rádio Jovem Pan, nesta sexta-feira.

Durante a participação do lateral no programa Jornal dos Esportes, ocorreu o diálogo a seguir:

Wanderley Nogueira (apresentador): Alô, Roberto?

* Roberto Carlos não responde, ouve-se o barulho de alguém batendo em um vidro.

RC: Peraí, só um minutinho.

WN: Esse é o Roberto Carlos participando do Jornal de Esportes da Jovem Pan. Ele deve estar dando um autógrafo ou então abraçando, ou sendo abraçado por algum fã.

RC: Acabaram de roubar o meu carro.

WN: Roberto? Como assim?

RC: Acabaram de roubar meu carro – dando risadas em seguida.

WN: Você está brincando? Como assim?

RC: Espera um pouco.

WN: Mas levaram o carro ou alguma coisa de você?

RC: Levaram meu anel apenas.

WN: Mas eles estavam armados?

RC: Estavam sim, mostraram o revólver para mim.

WN: E eles te reconheceram?

RC: Não não, estava no banco de trás.

No ano passado o apresentador Luciano Huck foi assaltado em São Paulo e em seguida ele publicou um texto que foi muito criticado, mas também recebeu inúmeros apoios. Na época os ladrões levaram um Rolex do apresentador.

globalvoicesonline.org

Imagem: globalvoicesonline.org

Em reportagem da revista Época: Ele merecia ser assaltado? Link

Leia o texto na íntegra do apresentador que saiu no jornal Foha de São Paulo:

01/10/2007 – 09h00
Opinião: Pensamentos quase póstumos

Luciano Huck foi assassinado. Manchete do “Jornal Nacional” de ontem. E eu, algumas páginas à frente neste diário, provavelmente no caderno policial. E, quem sabe, uma homenagem póstuma no caderno de cultura.

Não veria meu segundo filho. Deixaria órfã uma inocente criança. Uma jovem viúva. Uma família destroçada. Uma multidão bastante triste. Um governador envergonhado. Um presidente em silêncio.
Por quê? Por causa de um relógio.

Como brasileiro, tenho até pena dos dois pobres coitados montados naquela moto com um par de capacetes velhos e um 38 bem carregado.

Provavelmente não tiveram infância e educação, muito menos oportunidades. O que não justifica ficar tentando matar as pessoas em plena luz do dia. O lugar deles é na cadeia.

Agora, como cidadão paulistano, fico revoltado. Juro que pago todos os meus impostos, uma fortuna. E, como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa.

Adoro São Paulo. É a minha cidade. Nasci aqui. As minhas raízes estão aqui. Defendo esta cidade. Mas a situação está ficando indefensável.

Passei um dia na cidade nesta semana – moro no Rio por motivos profissionais – e três assaltos passaram por mim. Meu irmão, uma funcionária e eu. Foi-se um relógio que acabara de ganhar da minha esposa em comemoração ao meu aniversário. Todos nos Jardins, com assaltantes armados, de motos e revólveres.

Onde está a polícia? Onde está a “Elite da Tropa”? Quem sabe até a “Tropa de Elite”! Chamem o comandante Nascimento! Está na hora de discutirmos segurança pública de verdade. Tenho certeza de que esse tipo de assalto ao transeunte, ao motorista, não leva mais do que 30 dias para ser extinto. Dois ladrões a bordo de uma moto, com uma coleção de relógios e pertences alheios na mochila e um par de armas de fogo não se teletransportam da rua Renato Paes de Barros para o infinito.

Passo o dia pensando em como deixar as pessoas mais felizes e como tentar fazer este país mais bacana. TV diverte e a ONG que presido tem um trabalho sério e eficiente em sua missão. Meu prazer passa pelo bem-estar coletivo, não tenho dúvidas disso.

Confesso que já andei de carro blindado, mas aboli. Por filosofia. Concluí que não era isso que queria para a minha cidade. Não queria assumir que estávamos vivendo em Bogotá. Errei na mosca. Bogotá melhorou muito. E nós? Bem, nós estamos chafurdados na violência urbana e não vejo perspectiva de sairmos do atoleiro.

Escrevo este texto não para colocar a revolta de alguém que perdeu o Rolex, mas a indignação de alguém que de alguma forma dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo e concluir – com um 38 na testa – que o país está em diversas frentes caminhando nessa direção, mas, de outro lado, continua mergulhado em problemas quase “infantis” para uma sociedade moderna e justa.

De um lado, a pujança do Brasil. Mas, do outro, crianças sendo assassinadas a golpes de estilete na periferia, assaltos a mão armada sendo executados em série nos bairros ricos, corruptos notórios e comprovados mantendo-se no governo. Nem Bogotá é mais aqui.

Onde estão os projetos? Onde estão as políticas públicas de segurança? Onde está a polícia? Quem compra as centenas de relógios roubados? Onde vende? Não acredito que a polícia não saiba. Finge não saber. Alguém consegue explicar um assassino condenado que passa final de semana em casa!? Qual é a lógica disso? Ou um par de “extraterrestres” fortemente armado desfilando pelos bairros nobres de São Paulo?

Estou à procura de um salvador da pátria. Pensei que poderia ser o Mano Brown, mas, no “Roda Vida” da última segunda-feira, descobri que ele não é nem quer ser o tal. Pensei no comandante Nascimento, mas descobri que, na verdade, “Tropa de Elite” é uma obra de ficção e que aquele na tela é o Wagner Moura, o Olavo da novela. Pensei no presidente, mas não sei no que ele está pensando.

Enfim, pensei, pensei, pensei. Enquanto isso, João Dória Jr. grita: “Cansei”. O Lobão canta: “Peidei”. Pensando, cansado ou peidando, hoje posso dizer que sou parte das estatísticas da violência em São Paulo. E, se você ainda não tem um assalto para chamar de seu, não se preocupe: a sua hora vai chegar.

Desculpem o desabafo, mas, hoje amanheci um cidadão envergonhado de ser paulistano, um brasileiro humilhado por um calibre 38 e um homem que correu o risco de não ver os seus filhos crescerem por causa de um relógio.

Isso não está certo.

LUCIANO HUCK, 36, apresentador de TV, comanda o programa “Caldeirão do Huck”, na TV Globo. É diretor-presidente do Instituto Criar de TV, Cinema e Novas Mídias.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

Atualizando em 30.10.2008:

Milton Neves é assaltado em semáforo no Itaim Bibi, em São Paulo

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One Response to “Violência urbana: os ricos e famosos também choram”


  1. 1 Assalto em São Paulo: cuidado com chiclete na lataria do seu carro « Estratégia Empresarial

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