Jerome Wakefield: A linha tênue entre tristeza comum e depressão.

02maio08

O americano Jerome Wakefield, professor da Universidade de Nova York, estuda os fundamentos filosóficos da psiquiatria. Com formação em psicologia e doutorado em filosofia, gosta de investigar a natureza das doenças. Nos últimos tempos, Wakefield debruçou-se sobre a depressão – uma doença hoje considerada epidêmica – e sobre a linha tênue que a separa da tristeza comum, provocada pelas desventuras da vida.

“Desde que a psiquiatria passou a diagnosticar a depressão de acordo com os sintomas, e não pelo contexto vivido pelo indivíduo, existe uma enorme confusão entre as duas coisas”, afirma. “O resultado é que as pessoas se tornaram ultra-sensíveis em relação às emoções negativas e preferem tomar remédios a investigá-las.”

Segundo Wakefield, a tristeza profunda existe em todas as culturas e os motivos que a provocam podem ser enquadrados nas mesmas categorias em todos os lugares.

“Se você mostrar uma foto de alguém tristonho a moradores de uma tribo isolada e perguntar por que a pessoa está daquele jeito, eles apontarão os mesmos motivos que eu ou você”, diz.

“Dirão que o retrato é de alguém que perdeu um ente querido, ou terminou um relacionamento, ou está enfrentando dificuldades materiais, ou está doente e por aí vai.”

Por isso, diz o pesquisador, chama a atenção o fato de a tristeza ter se transformado num estigma em nossa sociedade. No livro The Loss of Sadness (numa tradução livre: “A perda da tristeza”), Wakefield e o sociólogo Allan Horwitz explicam como chegamos ao ponto de classificar como doença um sentimento que é parte da vida.

Por que a tristeza virou motivo de debates recentemente?

Diversos livros e artigos sobre felicidade surgiram nos últimos anos. Além disso, inúmeras pesquisas e obras sobre depressão foram publicadas. Agora essas duas coisas estão entrando em colisão. Existem dúvidas em relação ao objetivo de alguns desses trabalhos, que seria tornar possível que as pessoas sejam mais e mais felizes. É claro que todos querem ser mais felizes e não há nada errado nisso, mas há uma percepção de que alguns autores estão tentando ignorar a tristeza, ou defender que ela seja algo ruim, quando outros acreditam que a tristeza é uma emoção normal que cumpre um papel importante em nossas vidas. Esse debate envolve questões antigas, que remontam a 2,5 mil anos, relacionadas à natureza e ao sentido da vida. São questões profundas. E essa discussão, além de uma dimensão psicológica, tem uma dimensão política, na medida em que a busca pela felicidade individual pode tirar a atenção das pessoas de questões sociais mais amplas e da necessidade de agir para aprimorá-las.

A tristeza tornou-se um sentimento intolerável na nossa sociedade?

Acredito que ainda não chegamos a esse ponto, mas de fato existe uma impaciência crescente em relação à tristeza. É como se houvesse menos tolerância em relação à amplitude natural das emoções humanas. Nummundo que valoriza a eficiência e o trabalho frenético, há pouco espaço para o sofrimento e para a dor. A tristeza profunda provoca, biologicamente, uma necessidade de recolhimento. Ela pode fazer com que você não queira trabalhar por uns dias, ou não queira ver seus amigos por algumas semanas, e isso é considerado indesejável. Acredita-se que as emoções não podem atrapalhar os papéis profissionais ou familiares de uma pessoa. Quando isso acontece, existe uma tendência de rotular esse comportamento como doença – ainda que o sofrimento tenha sido provocado por um fator específico, como a perda de alguém querido, de um relacionamento importante, de um emprego ou de um bem material, por exemplo. A psiquiatria passou a rotular quase todo tipo de tristeza como depressão, e as pessoas tornaram-se ultrasensíveis em relação aos sentimentos negativos. Muitas recorrem aos antidepressivos ao primeiro sinal de angústia.

Como não confundir tristeza com depressão?

A depressão é um quadro clínico no qual o sofrimento não tem nenhuma relação com o contexto que a pessoa está vivendo, ou no qual sua resposta emocional é completamente desmedida em relação ao evento que provocou aquele sentimento. A tristeza normal – que pode ser intensa – é uma resposta natural a um acontecimento real. Essa distinção fundamental não é fácil. Há uma linha tênue entre as duas coisas e sempre haverá casos controversos. O problema é que ela simplesmente não está sendo feita.

Há casos em que a tristeza deva ser tratada com remédios?

Eu e meu colega Allan Horwitz não somos radicalmente contra o uso de medicação. Acreditamos que a decisão de usar ou não medicamentos deva ser tomada pelo médico com seu paciente. É possível que o uso de remédios seja apropriado em alguns casos de tristeza, quando o sofrimento é extraordinariamente intenso e a pessoa sente que, se conseguir aliviá-lo um pouco, poderá se tornar mais apta para lidar com aquela situação e reconstruir um determinado aspecto de sua vida. Mas é importante notar, em primeiro lugar, que essas drogas não são tão eficazes para a maioria das pessoas quanto costumamos acreditar. Não é como tomar uma aspirina para a dor de cabeça. Na maioria dos casos, é necessário tentar vários remédios até encontrar um que funcione. Em segundo lugar, os efeitos colaterais são piores do que os anunciados e vão além de alterações na libido. O mais importante, porém, é que a ciência ainda não sabe de que maneira os medicamentos interagem com a tristeza normal. É algo que ainda precisa ser investigado. O problema é que, como a psiquiatria não distingue entre a depressão e a tristeza normal, as pesquisas que vêm sendo feitas ainda não respondem essa questão.

Qual o risco de classificar a tristeza normal como depressão?

Quando você acredita que tem uma doença, imagina que ela não vai desaparecer sozinha – e a tristeza normal tende a desaparecer com o tempo. Você também acredita que ela foi causada por alguma disfunção física e que, por isso, precisa de medicação – quando, nos casos de tristeza, outras formas de apoio podem funcionar melhor. Muitas vezes, quando dou entrevistas para programas de rádio ou televisão, as pessoas ligam para contar suas histórias. Muitas relatam que optaram por não tomar remédios, apesar de ter recebido orientação médica, e que enfrentar a tristeza foi fundamental para que pudessem refletir sobre o que é realmente importante em suas vidas. Elas sentem que cresceram com isso. Há algo importante que precisa ser dito sobre a tristeza: trata-se de um sentimento muito rico, que dá à pessoa muitas informações sobre ela própria, informações importantes para o seu desenvolvimento. O uso de medicamentos, por outro lado, pode apagar essas informações. Imagine, por exemplo, se todos aqueles que viveram um fracasso amoroso simplesmente tomassem um comprimido e nunca se sentissem mal em relação ao que aconteceu. Que implicações isso teria para os relacionamentos amorosos e para o sentido de comprometimento entre os casais?

Na sua opinião, quem deu a maior contribuição para a sociedade: a psicanálise ou os antidepressivos?

Essa é uma pergunta complicada. Com todo respeito, acredito que a psicanálise falhou em vários pontos. Mas Freud nos deu algumas idéias inestimáveis sobre a vida e como a enfrentamos. Ele ensinou quão pouco conhecemos de nós mesmos, mostrou que precisamos encarar isso e lidar com os aspectos mais profundos da vida se pretendemos ser verdadeiramente felizes. Ele também revelou a complexidade da sexualidade de uma maneira que não havia sido feita até então. Sem falar na importância do inconsciente. Na minha opinião, o que é interessante sobre o ser humano é que nós somos sistemas de significado – e os antidepressivos não deram nenhuma contribuição para o entendimento de como esse sistema funciona.

O psicanalista americano Darian Leader diz que, nos tempos atuais, o entendimento da maioria das pessoas sobre a própria vida emocional pode ser classificado de “catastrófico”. O senhor concorda?

A psiquiatria passou a tratar as emoções negativas como doenças – e o resultado é que as pessoas não querem trabalhar suas emoções. Elas preferem tomar um comprimido. Muitos médicos americanos, hoje, deparam com pacientes profundamente tristes e partem do pressuposto que eles têm alguma disfunção química. O medicamento toma o lugar da exploração das emoções – uma abordagem contrária à da psicanálise. Há ainda um outro quadro, no qual as pessoas consideram que explorar o significado dos sentimentos e eventos não passa de uma perda de tempo. Se pensarmos que o ser humano merece viver uma vida rica, isso pode, sim, ser chamado de catastrófico.

Como transformar a tristeza em algo construtivo?

Uma das maneiras mais elementares é buscar a família e os amigos, pessoas que, além de dar apoio e inspiração, possam ajudá-lo a refletir sobre o significado do sentimento e daquilo que você porventura considera perdido. Explorar a sua tristeza com a ajuda de um profissional, como um psicoterapeuta, também pode ser uma boa idéia, porque permite fazer isso com mais profundidade e de uma maneira sistematizada. O que as pesquisas mostram com freqüência é que identificar a fonte do sofrimento, entender de que forma você pode recuperar o significado que considera perdido, lamentar o que foi perdido, como no luto, tudo isso é importante para que você seja capaz de processar o que aconteceu e recuperar a capacidade de agir. Trata-se de uma reconstrução gradual. É verdade que seus alunos costumam procurá-lo em momentos de tristeza? Sim, isso acontece. Muitos estudos apontam índices altíssimos de depressão entre jovens. Mas basta olhar com cuidado as estatísticas para perceber que, em vários casos, não se trata de depressão, mas da categorização errada da tristeza comum. Percebo que quando meus alunos enfrentam uma situação de tristeza profunda, isso provoca um certo pânico em suas famílias. Muitos pais recomendam que procurem um médico. Eles têm medo de que os filhos enfrentem uma depressão ou tentem o suicídio. Os próprios jovens explicam que estão tristes por um motivo específico, mas dizem que estão bem e não querem trocar a emoção por um medicamento. Mesmo assim, os pais insistem nos antidepressivos. É mais um exemplo do estigma que acompanha a tristeza e que hoje é alimentado pela propaganda. As empresas nos Estados Unidos podem colocar anúncios de remédios nas TVs e nos jornais. Há campanhas que perguntam coisas como: “você tem se sentido triste? Distraído? Cansado? Você pode sofrer de depressão. Procure um médico”.

O senhor condena a abordagem dos laboratórios?

A verdade é que não foram as empresas farmacêuticas que definiram os critérios usados para diagnosticar a depressão. Isso não é obra dos laboratórios, é obra da comunidade de psiquiatria. Na tentativa de ser mais precisos ou mais científicos, os psiquiatras criaram critérios que alimentam a confusão entre a tristeza e a depressão. As companhias farmacêuticas exploram esse erro. O curioso é que, se houvesse uma distinção correta entre as duas coisas, as próprias empresas poderiam se beneficiar. Elas costumam ter muita dificuldade em provar a eficácia dos antidepressivos – e pode ser que isso ocorra, em alguma medida, porque eles são receitados para pessoas que não deveriam tomá-los.

Um estudo publicado por Época NEGÓCIOS mostrou que mais de 80% dos executivos brasileiros afirmam ser infelizes no trabalho. O que, na sua opinião, pode explicar isso?

Nós estamos obrigando as pessoas a ter estilos de vida que não são compatíveis com a natureza humana. O trabalho ganhou tanta importância em nossa vida que é difícil encontrar o equilíbrio ou um sentimento de contentamento e de sentido em tudo o que fazemos. O trabalho é apenas uma esfera de nossa vida e, como as outras, deveria ser parte de uma visão orgânica na natureza humana. Acredito que os executivos deveriam refletir sobre como fazer com que a vida corporativa se encaixe na vida mais ampla de seus funcionários. Imagino que não seja motivo de orgulho para os acionistas ganhar US$ 1 a mais graças à infelicidade dos empregados. Há um outro aspecto importante. Executivos que ocupam os cargos mais altos costumam se declarar mais felizes, porque têm mais controle da situação. Já os profissionais nas faixas intermediárias, que têm menos controle e autonomia, costumam sentir mais insatisfação.

Via Época Negócios

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