Entenda o Subprime. Um mercado estúpido e ganancioso dos EUA.

14abr08

Com os problemas financeiros das últimas semanas é preciso entender o “estopim”, a origem para que o mercado financeiro entrasse em total desespero. É um problema que vem se acumulando faz anos e que algum dia poderia estourar e quem sabe pode até piorar. Os problemas das últimas semanas podem ser a ponta de um “iceberg” apenas.

Leia o artigo abaixo e entenda a irracionalidade de governos e autoridades que deixaram estes problemas aparecerem:


Imagem: The Economist

O mercado de subprime nos EUA era de aproximadamente US$ 1,5 trilhão. É um mercado que tomou forma faz alguns anos, com a concessão de crédito imobiliário de alto valor a pessoas que não tinham condições de honrá-los. Os chamados empréstimos Ninja, sigla para “no income, no job or assets“: sem renda, sem emprego e sem ativos.

“Exagerando um pouco, os bancos hipotecários deram empréstimos de US$ 500 mil a imigrantes ilegais que trabalham no McDonald’s“, nas palavras de Edward Chancelor.

Uma das maiores autoridades mundiais em bolhas financeiras, o historiador inglês Edward Chancellor. (Autor de Salve-se Quem Puder – Uma História da Especulação Financeira. O livro foi escolhido como “obra notável” de 1999 pelo jornal The New York Times e entrou na lista da revista Money como um dos seis clássicos indispensáveis sobre investimentos).

“Nos últimos três anos ganhou-se mais dinheiro em Wall Street do que jamais se havia ganho na história moderna”, diz Chancellor.

“Mas essa riqueza é sintética, artificial, sustentada por operações de crédito realizadas na base de US$ 1 em garantia para cada US$ 20 tomados em empréstimo. Todos sabemos que uma expansão saudável do crédito antecede o crescimento da economia, mas você acha que esse tipo de alquimia financeira é sustentável? Eu não acho”.

Engenharia financeira estúpida.
O passo seguinte foi diluir o risco dessas operações duvidosas juntando-as aos milhares – e transformando a massa resultante em derivativos negociáveis no mercado financeiro, em valor cinco vezes superior ao das dívidas originais. Essa etapa do processo é chamada de securitização e equivale a uma alquimia capaz de transformar 2 quilos de terra em 10 quilos de ouro.

Espantoso, mas verídico, é que tal papelório lastreado em vento tenha obtido aval das agências de risco, que deram a ele a chancela máxima de triple AAA. Em termos técnicos, isso significa títulos tão sólidos quanto os do Tesouro dos EUA e muito mais confiáveis do que os bônus do governo brasileiro.

Assim, avalizados como coisa segura, e ademais baratos, os débitos de fantasia ganharam o mundo e passaram a povoar a carteira de investidores desavisados e instituições financeiras ambiciosas – servindo, freqüentemente, como garantia para tomada de novos empréstimos bilionários, alavancados na base de 20 para 1. Parece um conto de fadas criado na mesa de operações de um banco de investimentos.

“É um tremendo clichê, mas o que aconteceu agora foi a queda do castelo de cartas”, diz Chancellor.

Como em outras crises financeiras, desta vez chegou-se ao Dia do Juízo por um caminho pavimentado por três fenômenos: abundância de capital, inovação financeira e leniência regulatória.


Imagem: The Digerati Life

A leniência regulatória.
Logo após o estouro da bolha da Internet em 2000, o presidente do Federal Reserve, o lendário Alan Greenspan, cortou os juros e inundou o mercado financeiro de dólares baratos. Com juros baixos nos EUA e excedentes comerciais estratosféricos na China, o mundo foi irrigado por uma onda de liquidez nunca vista.

Ela está por trás do crescimento global acelerado e de várias coisas boas que aconteceram nos últimos anos, inclusive a estabilidade e relativa prosperidade do Brasil.

Esse, aliás, é um aspecto pouco mencionado das bolhas econômicas: elas podem ser positivas em vários sentidos. Aceleram o crescimento, geram riqueza e investimento e abrem espaço para a inovação. Um capitalismo extirpado de surtos de euforia teria mais estabilidade, menos progresso e, provavelmente, estagnação. Quase não seria capitalismo.

Com o corte nos juros houve um aumento nos empréstimos a partir de 2002 e com o aumento da demanda os preços dos imóveis dispararam.

Como os imóveis são entregues como garantias nos financiamentos, a sua valorização acabava gerando um excesso de cobertura. O bem entregue em garantia era suficiente não apenas para pagar o financiamento, mas havia uma sobra que permitia aos mutuários refinanciarem suas casas.

Assim, as pessoas, pegavam um novo empréstimo, maior do que o anterior, quitavam a dívida e usavam a sobra de caixa para consumir. Esse tipo de facilidade foi aberta a todos os perfis de interessados, tanto para aqueles com bons históricos de pagamento como para os que apresentavam restrições cadastrais, que receberam o nome de subprime.


Imagem: In These Times

Se a abundância de capital está por trás de quase todas as bolhas, a inovação financeira é seu par mais freqüente. A securitização de débitos hipotecários, protagonista da última corrida de mercado, é uma invenção recentíssima. Foi testada agora pela primeira vez e os resultados são desalentadores. A inadimplência em 2006 foi muito maior do que se esperava, e os derivativos que se apoiavam nas hipotecas estão sendo negociados a 40% de seu valor de face, um verdadeiro desastre.

Mas o risco associado aos novos títulos financeiros não se resume apenas à subespécie hipotecária. Os derivativos como um todo são instrumentos financeiros relativamente recentes, consideravelmente mais voláteis que seus antecessores históricos, e já somam ao redor do mundo a quantia assombrosa de US$ 300 trilhões. Isso mesmo, US$ 300 trilhões.

“Já estamos fazendo derivativos de derivativos, que entram na contabilidade dos bancos globais de uma forma que ninguém mais entende”, diz Chancellor.

Isso leva à questão controversa da regulamentação e da supervisão do mercado finaneiro. Nos dias de turbulência de agosto, quando as cabeças estavam quentes e os bolsos ameaçavam ficar vazios, o próprio Greenspan foi acusado de ter sido leniente com os mercados em 2000, ao socorrê-los com juro fácil na explosão da bolha da internet.

“Cada vez que se empurra uma crise dessas proporções com a barriga, ela se transforma lá na frente em uma crise maior”, diz Chancellor.

A alternativa, claro, não é indolor. Se Greenspan tivesse fechado a torneira, o mundo teria crescido muito menos do que cresceu desde 2000.

“Os ciclos econômicos sempre vão existir porque, de alguma forma, correspondem à natureza humana”, diz Chancellor.

Quando as coisas vão bem, as pessoas enlouquecem de ambição. Quando o pêndulo volta e castiga, como cedo ou tarde acontece no capitalismo, elas reclamam das autoridades e da complacência diante das oscilações econômicas. É estúpido, mas parece inevitável.

E com o alto volume de dinheiro disponível ultimamente, o subprime foi um setor que ganhou força e cresceu muito. A atual crise, assim, é proporcional à sua expansão.

Fontes:
Revista Época Negócios
Folha de São Paulo
Jornale

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6 Responses to “Entenda o Subprime. Um mercado estúpido e ganancioso dos EUA.”

  1. Olá a todos!

    Retribuindo a visita, Andrey.

    Gostei bastante do website. Muitas matérias interessantes!

    Parabéns!

    Grande abraço

    Bruno

  2. Olá Bruno,

    seja sempre bem-vindo!

    Abraços

  3. 3 Cesar Passos

    Alexandre o Grande, acabara de conquistar novo imperio, e ao se deparar com os conselheiros do Reinado, muitas vezes amava ouvir elogios sobre seu desempenho, mais um dia teve de suportar oratória mordaz e eficiente de um humilde servo.

    Quando conquistares as estrelas, se irarás contra seus mais singelos e espetaculares reis , o sol e a Lua

    Quando conquistares os céus… se voltaras contra o dominio das aves que singram os céus

    Quando conquistares as Selvas , rios e montanhas, dizimaras os animais, pela sua liberdade

    Quando enfim, dizimares os homens… perceberás que tudo o que te restou foi o brilho persuasivo e incessante do Pó de tua Ganancia .

  4. Olá César Passos,

    obrigado por deixar a sua mensagem aqui no blog.

    Abraços

  5. Muito bom mesmo!

    Ótimo post!

    abraço

  6. Olá Carlos,

    obrigado pelas palavras e seja sempre bem-vindo aqui no blog!

    Abraços


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