Soraya Cuba Bittencourt trabalhou na Embratel, onde participou do lançamento do primeiro satélite brasileiro. Nos EUA foi, respectivamente, diretora e gerente de desenvolvimento, da Lotus e da Microsoft. Depois, passou pela WebEx.com e Obongo.com, e foi diretora técnica sênior da America Online Time Warner.
Escreveu My Road to Microsoft, com a escritora americana Paula Martinac, lançado no Brasil como “Uma Vida de Sucesso“.
De olho em Gates.
É tradicional, na Microsoft, um jantar para a apresentação dos novatos a Gates. Na hora do cafezinho, após o discurso de boas-vindas do presidente, ela e outros 50 novatos correram para cumprimentar o chefe.
Soraya até chegou a falar com o novo patrão sobre o seu projeto, parcos 30 segundos, mas Gates não demonstrou interesse. Mandou que ela escrevesse para outra pessoa na companhia. Ali ela começou a planejar como faria para encontrá-lo novamente. Procurava sempre uma oportunidade de entrar no Edifício 8 do campus, onde ficava o escritório de Gates.
Observava se a Ferrari vermelha do patrão estava na garagem, anotava os hábitos dos seguranças.
“Sempre com o crachá de funcionária à mostra, para não levantar suspeitas”, diz.
O trabalho de campo indicou que seria impossível chegar ao homem mais rico do mundo. Mas mostrou, por outro lado, que talvez fosse possível entrar na sala dele aos sábados, quando a vigilância relaxava na ausência do chefe. O problema era que a porta de acesso ao tal Edifício 8 vivia fechada.
Soraya ia lá, testava a maçaneta como quem não quer nada, e a porta estava trancada. Um dia, porém, a porta abriu. Sem hesitar, a engenheira driblou o pessoal de manutenção, atravessou corredores desertos e chegou ao gabinete de Gates.
“Tinha ar de biblioteca e clube masculino.” Ali, teve tempo de depositar o CD-Rom sobre a cadeira do chefe.
Fazer Bill Gates se interessar por um negócio exige inteligência, competência e persistência. Penetrar no seu escritório, iludindo o sistema de alarme e os seguranças, exigeu audácia. Soraya Bittencourt entrou na sala de Gates numa tarde de sábado, em março de 1994, e pôs na cadeira do fundador da Microsoft um CD-Rom acompanhado de seu cartão de visitas e um bilhetinho:
“Prezado Sr. Gates, eu sei que se vir o conteúdo ficará interessado. Gostaria de expor-lhe minhas idéias sobre como a Microsoft poderá revolucionar a indústria do turismo”.
Quando se preparava para sair, um segurança entrou na sala e interrogou-a rispidamente, levando o CD com ele.
“Pensei que perderia meu emprego”, diz Soraya, que já era funcionária da companhia.
Durante semanas, não soube nada sobre o disco, até que uma das executivas da Microsoft convidou-a para uma reunião e lhe disse, displicentemente, que a empresa estava interessada no mercado de viagens.
“Você não quer fazer parte desse time?”, perguntou.
Soraya percebeu de imediato que a ordem vinha de Gates.
“Claro”, respondeu. “Quando iniciamos?”
Mas antes, o passado. Gates, segundo Soraya, é aquilo que falam dele: um gênio da tecnologia e dos negócios, impiedoso quando se trata de manter sua empresa competitiva.
As histórias sobre apresentações internas que resultavam na destruição inclemente de idéias aparentemente brilhantes abundavam na Microsoft. Assim, a preparação da apresentação sobre o serviço de turismo foi um trabalho árduo, sem folgas, que consumiu três meses.
“Fazíamos e refazíamos tudo com o maior cuidado, atrás de imprecisões que nos embaraçassem”, diz ela.
Valeu a pena. Gates aprovou a idéia e colocou dinheiro no projeto, que se estendeu por mais de dois anos. Nesse espaço de tempo, o CD-Rom foi desbancado pela internet e todo o trabalho teve de ser refeito.
Em outubro de 1996, foi lançado o Expedia, o serviço de turismo da Microsoft. Um ano depois, o faturamento mensal era de US$ 12 milhões.
O salário de Soraya melhorou com o lançamento da nova divisão de turismo da Microsoft. Foi acrescentado a ele o incentivo milionário das ações, que maturariam dali a quatro anos. E foi então que a Microsoft, em 1996, por questões fiscais, decidiu fazer do Expedia uma empresa - e preteriu Soraya na escolha de seu CEO.
“Acho que pesou o fato de eu ser mulher, imigrante e gay”, diz ela.
Jamais conseguiu se entender com Richard Barton, o escolhido. Na comunidade de tecnologia americana, Soraya é reconhecida como uma das criadoras do Expedia, o primeiro site de turismo da internet.
Leia a matéria completa com a carioca Soraya Bittencourt na revista Época Negócios de dezembro de 2007 - aqui.